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Fabiano de Cristo N. Dias

Psicólogo / Professor

Acadêmico da ALB –Seccional

de Bragança, Cadeira nº21

 

A bagagem exigida para entrar sem constrangimento e sofrimento ameno, na alfândega da eternidade são os preceitos morais e o nível de espiritualidade construídos na vida!

Fabiano de Cristo.

 

Na penumbra da noite, úmida e silenciosa, quando todos se recolhem para a hipnose momentânea encontrava-me deitado lendo um livro de Rubem Alvez¹ quando, de repente, ao levantar-me para tomar um copo de água, apareço por inteiro no reflexo do espelho e, ao olhar para a cobertura física, tive a nítida consciência de que o meu templo psicofísico já começara a enveredar pelas vielas do envelhecimento orgânico.

A neve do tempo já se faz presente com a tintura prateada que se ganha ao terminar em passar os anos. Os faróis que, na jovialidade, varriam as distâncias sem nenhum problema, hoje precisam de lâmpadas novas para iluminar o perto e ajudar-me na decifração do escrito.

O tempo é lento mas irreversível. Avança e caminha como um senhor absoluto em nossa civilização a despeito de tudo e de todos. Voltar jamais! Este declínio físico alerta que brevemente baterei asas e alçarei o voo intangível e etéreo que me levará ao umbral da eternidade. A essência que deu origem a existência e o retorno à essência. A eterna idade sem a dimensão física e quem sabe livre das vicissitudes evocadas pela carne, na temporalidade espacial.

Como ser humano ainda na existência, é chegada a hora de começar a reorganizar os valores e crenças e repensar refletidamente sobre a finitude da vida e a possibilidade da continuidade da vida pós-morte, da personalidade integral. Assim, para segurança e compreensão pessoal, não como conformismo mas como dinamismo para a ação e mudanças, lançarei mão de duas passagens na Bíblia que ajudará a melhor refletir sobre a “morte”.

Em Samuel I, 28, p.241², transcrevemos a seguinte narrativa: “Saul, na iminência de guerra contra os Filisteus e vendo o seu exército, penetrou-se de modo, o seu coração se intimidou sobremaneira. E consultou ao Senhor, e não lhe respondeu nem por sonhos, nem por sacerdotes, nem por profetas. E disse Saul para os seus servos: buscai-me uma mulher que tenha o espírito de Piton ( na antiguidade, mago, necromante), e eu irei ter com ela, e a consultarei. Foram a cidade de Endor onde tinha uma mulher com o espírito de Piton. Lá chegando, a mulher disse-lhe: quem queres tu que te apareça? Disse-lhe Saul: faze-me aparecer a Samuel. E disse a mulher a Saul: vi deuses que subiam da terra. E disse-lhe Saul: como é a sua figura? Respondeu-lhe a mulher: subiu um homem ancião, e esse coberto com uma capa. E entendeu Saul que era Samuel, e fez-lhe uma profunda reverência, e prostrou-se por terra. Disse pois Samuel a Saul: por que me inquietaste fazendo-me vir cá? E Saul lhe respondeu: eu acho-me no último aperto: porque os filisteus me fazem guerra, e Deus se retirou de mim, e não me quis ouvir nem por profetas, nem por sonhos: por essa razão te chamei para que me declarasse o que devo fazer. E disse Samuel: para que me perguntas, quando o Senhor te tem desamparado, e se passou para o teu rival? Porque o Senhor te tratará, como eu to disse da sua parte, e dividirá o teu reino da tua mão, e o dará a Davi, teu parente mais próximo. Já que não obedeceste à lei do Senhor, nem executaste o decreto da sua ira contra o amalecista: por isso te fez hoje o Senhor isso que padeces. E o senhor te entregará contigo Israel nas mãos dos filisteus. Amanhã pois tu, e teus filhos sereis comigo: e até o Senhor entregará também nas mãos dos filisteus o campo de Israel. E imediatamente caiu Saul estendido por terra: porque se espantou com as palavras de Samuel, e lhe faltaram as forças, porque não tinha comido nada todo aquele dia”.

Aqui é interessante observar o diálogo entre o o vivo e o “morto”, intermediado pela pitonisa, que denota ter presenciado a conversa. Em nenhum momento, Samuel condenou a prática da conversa entre o falecido e outro por falecer, o que aconteceu no dia seguinte, com a morte de Saul, os três filhos dele e o fiel escudeiro. Samuel aparece vivo e conversa com Saul sem qualquer restrição. A conversa é franca e aberta, inclusive, descrevendo o que iria acontecer à Saul. Podemos inferir que Saul também acreditava nessa possibilidade, tanto que no desespero buscou a orientação de Samuel. Esta passagem mostra de maneira clara a existência física, corporal, passageira (Saul) e a existência imortal, definitiva e perene (Samuel), levando a questionar se é uma consoladora certeza ou sempre foi uma certeza refutada pela razão ou outros preceitos humanos?

Outra passagem interessante é a fala de Jesus (Lc 20.37-38) “E que os mortos ressuscitam, o próprio Moisés o dá a entender no episódio da sarça ardente, quando fala do Senhor como Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, e sim de vivos, pois para eles todos vivem”.

Então, se Deus continua sendo o Deus dos vivos, a morte é só um fenômeno de renovação e transformação natural, onde saímos da realidade material para a espiritual Aqui também é interessante relembrar a transfiguração de Jesus (Mt 17) “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou à parte para um monte alto. E ali se transfigurou diante deles: seu rosto ficou resplandecente como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz. E apareceram-lhes Moisés e Elias, que conversavam com Jesus”.

O texto é explícito: Jesus conversava com Moisés e Elias que já haviam deixados a existência física há muito tempo. Percebe-se nessa passagem a possibilidade evidente da vida após a vida, denotando que ninguém morre com o desenlace físico, continuando vivinho em outra realidade, que podemos inferir como espiritual, mais sútil e etérea.

Outra forte evidência sobre a vida após a vida foi a própria ressurreição de Jesus após a morte, aparecendo a inúmeras pessoas, deixando como palavras últimas antes de expirar: “ Pai em tuas mãos entrego o meu espírito”. Jesus deixa claro que a personalidade continua como espírito.

São fatos e evidências no livro mais famoso dos cristãos, a Bíblia. Inúmeros outros encontramos nesse livro, como a ressureição da filha de Jairo por Jesus, assim como a ressuscitação de Lázaro à vida, falecido há 3 dias. O próprio Saulo de Tarso na insana perseguição aos cristãos, defronta-se, face a face, com Jesus ressuscitado, ficando, inclusive, cego com a visão para depois transformar-se em Paulo de Tarso, considerado o maior apóstolo do cristianismo nascente.

Como disse anteriormente, a reflexão não é para me conformar ou consolar mas ajudar-me para o processo geral de mudança interior na relação com os outros, tendo plena consciência e convicção racional de que continuarei vivo, após despojar-me do corpo físico e ser revestido do corpo espiritual, conforme afirmara São Paulo.

Finalmente, é importante refletir sobre: o que é a vida senão a morte, o que é a morte senão a vida. Ao olhar a vida vejo a morte, ao olhar a morte vejo a vida. Vida e morte e morte e vida se encontram na terra e se completam na eternidade.

 

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¹ Alves, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Editora Ars Poética, 1980.

² Bíblia Sagrada. Rio de Janeiro: Sivadi Editorial Ltda, 1979.





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